segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Alagadiço da Perdição

Era fim de tarde.

Por dias não se ouviu nem o som dos pássaros e a relva morta cobria aquele alagadiço. O odor podre e acre queimava as narinas e, lentamente, envenenava os pulmões. O limo dava impressão ainda mais sombria àquela região. Parecia que tudo estava se decompondo aos poucos.

Durante milhares de anos, nenhum raio de sol havia penetrado naquelas águas escuras e fétidas. Apesar disso, eu continuava caminhando curvado por entre os alagadiços que dominavam aquele terreno. Tinha que ter cuidado, pois nenhuma palavra da língua elfa ou mortal seria capaz de descrever as criaturas que viviam escondidas debaixo das folhas apodrecidas e dos animais em decomposição que jaziam naqueles poços. Mas a esperança de encontrar a erva de Trurk me mantinha vivo e confiante.

Fazia já alguns dias que eu estava perdido naquele pântano e uma sombra começava a cobrir meu coração. Sempre soube que não era uma boa viajar por aquelas terras, mas não tive opção. Para que vocês possam entender, devo retroceder um pouco no tempo...

Há cinco dias, estava passando por uma pequena vila de Anões e rumava para o norte, quando uma águia prateada me trouxe uma notícia que fez gelar minhas entranhas: O mestre Folha-Verde tinha sido envenenado. As causas eram desconhecidas, mas segundo o sábio da vila, apenas um antídoto, feito com a erva de Trurk, poderia salvá-lo.

Gostaria de ter tempo para descrever os Anões. Como são criaturas maravilhosas! Entretanto, minha pena e meu pergaminho só possuem espaço para desenrolar este acontecimento. Espero ter a oportunidade de descrevê-los para vocês noutro momento.

Poderia ser tudo muito simples, mas havia um percalço... A erva de Trurk deveria ser colhida no centro do Alagadiço das Perdições. Todos sabem que as trevas cobrem aquela região desde que o velho Trurk se foi.

Aquele lugar se tornou inóspito... a água era podre, o ar seco e frio, e um estranho peso era incumbido à alma e ao corpo, como se fardos pesados fossem colocados sobre os ombros daqueles que se arriscavam a por ali vagar.

Por fim, as histórias contavam que somente aquele que tivesse seu coração testado poderia alcançar o que procurasse.


E aqui estou eu...

Já não tenho mais provisões e a sombra que cobre tal lugar começa a penetrar no meu peito como punhais penetrando pouco a pouco. Mesmo depois de ter colhido a erva de Trurk me sinto fraco e sem vontade de prosseguir. Deito-me sobre a esfarrapada capa de viagem, presente dos elfos das florestas, e tento olhar as estrelas... Mas elas somem dos meus olhos. Não vejo nada além de trevas... Então, eu adormeço.

Na manhã seguinte, enquanto procurava algo para comer dentro da mochila de viagem, encontro um pergaminho bem velho e sujo. Aquilo jamais esteve entre os meus pertences, mas de alguma forma estava ali agora. Fui desdobrando aos poucos, ainda receoso, e encontrei o seguinte dizer:



Passei horas procurando, devaneando e revirando minhas memórias, na esperança de que pudesse encontrar algo que me levasse a Prometeu. Sempre houve contos sobre ele, como foi preso e torturado por ter oferecido aos homens a dádiva do fogo. Mas eram apenas lendas e velhas histórias e nada conseguia achar em minha mente que pudesse me levar até ele.

No inicio da noite, meu corpo já estava dolorido e faminto e meu espírito suplicava aos céus uma pequena ajuda. Estava cada vez mais frio e se não fizesse uma fogueira iria congelar. Já sentia uma dormência nas extremidades do corpo, mas não havia lenha para queimar. Vasculhei a mochila e tirei de lá alguns pergaminhos em branco. Juntei-os e ateei fogo.

Aquela pequena chama alegrava meu corpo, me sentia novamente em casa, ao redor da fogueira e tomando um bom gole de vinho! Mas logo o fogo foi se apagando, juntamente com meu rápido instante de felicidade! Então, abri novamente a mochila e peguei o velho pergaminho que atormentara minhas idéias nas últimas horas. Não houve sequer uma mínima hesitação. Atirei-o ao fogo. Houve um breve clarão. Então, uma fumaça azul surgiu, subindo aos céus.

Aquela fumaça azulada, com leve brilho, fez um arco logo acima da pequena fogueira, que agora ardia como se a ela tivessem sido oferecidas grandes lenhas. No inicio, não entendi bem o que eram aquelas imagens, dentro daquele arco mágico. Havia muita dor e sofrimento, passavam guerras, mortes, traições de todos os tipos, desilusões e outras chagas. Eram como imagens em movimento. Filmes, como os mortais do mundo humano chamariam.

Não havia esperança! Estava sucumbindo às trevas daquela região!

Foi quando um rosto sorriu para mim no meio da podridão que me era mostrada. Ele estava ali o tempo todo e somente agora pude vê-lo! Meu coração se encheu de esperança ao ver aqueles olhos castanhos. Era como se toda a felicidade do mundo percorresse minhas veias só de olhar aqueles olhos!

De repente, houve um novo clarão e um grande estampido. Algo como um raio que atinge a terra. Acabei perdendo os sentidos!

Quando abri os olhos, estava deitado numa cama macia. E, sentado em uma poltrona grande e felpuda, estava o velho Folha-Verde, fumando seu cachimbo em formato de dragão. Tentei levantar-me, mas ainda estava muito fraco. Olhando-o, o enchi de perguntas, de como fui parar ali, ou se tudo não tinha passado de um sonho...

Ele fez um aceno com a mão para que eu parasse de falar tanto. Então, disse que não sabia o que ou quem havia conjurado um feitiço tão poderoso, capaz de me salvar daquele lugar terrível. Contei para ele sobre a figura que eu havia visto e como sentia toda vez que olhava em seus olhos. Ele se levantou e foi andando em direção à saída da sala. Parou na porta e, sorrindo, me falou:

– O amor, meu caro amigo... O amor!

E saiu assoviando.

Histórias são contadas e músicas foram feitas contando a bravura daquela jornada, mas poucos tiveram a sabedoria de Folha-Verde para saber o que realmente me salvou...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Conselho Dourado

Faz tanto tempo que nos falamos que eu, sinceramente, não saberia recomeçar a escrever se não tivesse acontecido algo inesperado nesta virada de ano!

Na verdade, no dia da virada nada de tão interessante aconteceu que pudesse ser retratado neste conto. Mas no outro dia, quando passeava pela praia durante a noite, senti aquele olhar me filtrar e seguir enquanto eu caminhava. Nada podia fazer a não ser continuar a minha jornada, com meu corpo atento a qualquer movimento na vegetação oposta ao mar que seguia por quilômetros.

Eu já havia morado com os Elfos das Terras Douradas, ao norte do Lago Encantado. Então, aprendi com eles que às vezes provocar o destino era uma boa forma de conhecer alguém. Sinto-me tentado em explicar como é que funciona a provocação do destino, mas irei deixar isso para outra história.

E foi assim que, andando, eu preparei tudo para que o ente que me fitava aparecesse. Não demorou muito e uma criatura com menos de meio metro, puxando um baú duas vezes seu tamanho em extensão e altura, saiu da mata resmungando algo que não consegui entender. Pela sua roupa peculiar, sapatos pontudos, calça parda, blusa verde musgo de mangas compridas, com um pequeno colete pardo por cima, logo percebi que se tratava de um gnomo.

Como vocês já devem ter ouvido falar que os gnomos são criaturas que guardam seu tesouro com a sua própria vida. Curioso, fui lentamente me aproximando para entender o que ele tanto murmurava. Pensei que caminhava furtivamente, quando fui surpreendido com um grito: - Grandalhão, não venha tão devagar! Não percebe que preciso de ajuda?!

Foi assim que juntos carregamos o baú por um longo percurso. Eu sentia o peso de uma vida inteira contido nele. Fomos até o rochedo perto do mar, o enterramos e só depois de todo esse percurso o gnomo olhou profundamente nos meus olhos e disse: - Muito obrigado, meu caro pernas compridas! Agora, o que eu mais prezo está seguro! Passei grande parte da vida conseguindo todos esses itens e tudo que mais quero é mantê-los a salvo. E quanto a você, já possui o seu tesouro?

Essa pergunta me fez pensar em tudo o que eu gostaria de ter... contemplei as estrelas, o mar e aqueles olhos pretos e profundos que me olhavam interrogativos e respondi: Já encontrei o meu tesouro há algum tempo. Mas o perdi, por minha própria ignorância e falta de compreensão. Foi nesse momento que percebi que o ciúme havia me levado o que tinha de mais precioso.

Agora, sentado perto do mar, voltei a pensar no meu grande amor do passado, que compreendi ser do presente e do futuro. Não sei o motivo de ter voltado para algo que já adormecia em meu peito, mas foi isso o que aconteceu.
O velho gnomo me olhou intrigado. Pegou um cachimbo, o encheu com ervas que trazia em uma capanga ao lado, acendeu-o, deu dois tragos e sacudiu a cabeça negativamente, enquanto coçava o queixo com a mão esquerda. Levantou a cabeça lentamente, olhou para minha alma e disse: - E você não fez nada para recuperá-lo? Nenhuma criatura do mundo pode viver sem ter o que é mais valioso perto de si.

Fiquei adormecido e estagnado por tamanha verdade!

Então, ele se levantou, fez um aceno com a mão e saiu tragando seu cachimbo em direção a floresta densa. Fiquei lá digerindo o que ele havia me dito. Quando percebi, o sol já começara a raiar no mar. Um novo dia surgia e, com ele, nascia uma nova vida, pois eu já me decidira: Iria recuperar o meu tesouro perdido!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Chave do Portal

Depois de conhecer o mundo dos Elfos é difícil voltar e vagar pelas terras dos humanos. Aqui tudo é sem cor, é uma repetição frenética do cotidiano! Tentava de todas as formas retornar para aquelas terras, mas não conseguia achar o caminho para o Portal, então vaguei por dias e noites perdido!

Já me sentia fraco, quase aceitando aquela realidade inóspita, por mais difícil que fosse isso! Não é fácil ser agraciado com tal dádiva e a perder. Pois é, imagine vocês o que seria, em uma comparação chula, pegar um peixe de aquário acostumado a plantas artificiais e a um espaço pequeno, sem muitas opções e o colocar nos mares do Caribe, com toda biodiversidade e depois, simplesmente, o retirar e devolver para sua prisão aquariana...
Os deuses, com certeza, tinham deixado uma pista de como chegar ao Portal, eu tinha que ter deixado escapar alguma coisa, só não conseguia achar. Então, já sem esperança, fui a uma área afastada e alta da cidade ver o por do sol. Na verdade, fui ouvir a canção dos anjos ao nascer e ao morrer do sol.
Não sei se vocês gostam do crepúsculo, a cor alaranjada no horizonte, a boa sensação que o entoar da canção celestial nos traz. Assim, diante dos meus olhos, vi a chave do Portal! Já conseguia contemplar as torres do velho castelo e o som das harpas e bandolins élficos. É tudo tão belo, tinha voltado ao secreto mundo!
Depois de horas desfrutando cada lugar, encontrei a trilha do lago encantado, lar das ninfas do leste, e aquela areia fina e dourada que conduzia à estrada... Abaixei-me e a toquei. Ela escorreu entre meus dedos. Já ouviram falar das ninfas? Pois mesmo que tenham ouvido, preciso lhes contar mais...
...neste momento ouvi ao fundo chamarem meu nome... virei-me e já estava deitado no sofá em minha casa! Na cozinha, meu irmão me chamava. Olhei para minhas mãos e a areia ainda brilhava por entre meus dedos! Sorri sutilmente e levantei-me para atendê-lo. Agora, a serenidade tomava conta do meu ser, já que havia encontrado a chave do Portal!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Destino em Tinta

De imediato, eu peço ao leitor mais aflito que não continue a leitura se não tem vontade de se perder em uma folha de papel e um lápis.

Digo isso, porque fico por muito tempo contemplando um papel em branco, mesmo com um lápis na mão e com uma idéia fixa no pensamento me sinto como Teseu e seu labirinto. Imagino o que pode ser redigido. Minhas idéias mudam e transmutam, não sei mais o que vou fazer, se vou escrever, se vou desenhar, ou mesmo rabiscar. Aquele pedaço mágico de mil possibilidades poderia resgatar um antigo amor, trazer um novo amor, fazer inimigos ou mesmo amigos, declarar guerras, por fim a conflitos milenares...
Todo poder em um simples pedaço de pergaminho velho!
Olho para os lados e não vejo os restos de papeis amassados, talvez Shakespeare esteja sentindo inveja de não precisar amassar tantos itens mágicos para poder escrever um único conto. E nem por isso essa tela, com a imagem destes novos e modernos ofícios, tipo A4, deixa de ter o mesmo poder da escrita, que teria um tinteiro e um pergaminho.
Não sei bem o que provoca ou emana este poder a um fato imbuído em celulose, ou o que o torna tão real que é capaz de fazer pessoas chorarem, rirem ou sentirem qualquer uma das emoções humanas, ao se deliciarem com o que ali fora forjado, sem fogo ou martelo, mas com pena e tinta. Sinto, quando não mais desejo alterar as palavras de um texto, um sentimento de êxtase que me invade. Só então percebo a plenitude da criação!

Afinal é com tinta e papel que se pode delinear destinos e transformar momentos!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Novos Tons

Certo dia, estava andando entre casas e prédios, asfalto e postes, pessoas e mais pessoas.

Tudo isso aparentemente soaria como algo comum, até mesmo normal, mas neste dia acho que os Deuses estavam me olhando. Mas não foi um olhar só por olhar, eu podia sentir a energia de seus poderes emanarem em mim! Foi quando eu soube que Eles me escolheram para ir ao portal. Não sabia se era porque eu já estava preparado para cruzar o portal do novo mundo ou se somente fui agraciado com esta dádiva.
Mas os Deuses são engraçados, eles mostram um portal em um local mais comum do que poderia se pensar, ninguém jamais pensaria que naquele local estariam os hobbits, elfos, magos e outras criaturas que já há muito foram esquecidas pela humanidade. Creio que, como toda coisa desconhecida, no inicio senti um incrível êxtase de prazer e ansiedade, que se misturou com medo e vontade, que me repelia e me fazia desistir e voltar para os prédios, casas e pessoas...
Mas aquele portal era tão brilhante e tão convidativo, que mesmo olhando para trás e vendo que o velho mundo iria perder suas cores no momento em que eu cruzasse aquele brilho intenso, meus pés começaram a andar em direção ao mundo dos Elfos. Sentia cada fibra do meu corpo tremendo de prazer e medo, era algo que jamais tinha sentido, um fervilhão, uma adrenalina pulsante que me deixava cada vez mais forte e ansioso em ser um cidadão Elfiano.
Então, ao chegar ao limiar do novo e velho mundo, não resisti e toquei aquele brilho. E fui sugado para o outro lado. Deus! Todas as cores pareciam mais vivas! As vidas pareciam menos mórbidas! Acho que até o tempo parou para contemplar a beleza de viver! Tudo era tão diferente, tão parecido com os Elfos do mundo antigo, acho até que conseguia ouvi-los, tocando harpas naquele novo mundo, que não era mais dominado por vermes que parasitam a felicidade alheia, neste novo mundo contemplávamos as estrelas, víamos o morrer da lua e o renascer do sol, dormíamos saboreando o prazer.

É neste novo mundo que irei degustar a delícia de ser um novo ser!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Amigos e Tiros.

Acredito que muitos de vocês já devem ter ouvido falar do Festival de Inverno Bahia.

Pois bem, eu sou uma daquelas pessoas que contam os dias para a chegada da festa, não por ser uma pessoa “festeira”, como se costuma falar. Na realidade, quase não vou e pouco gosto de festa com grande aglomeração, mas o Festival é algo totalmente diferente... Possui algo com uma sintonia, que contagia e envolve!

Mas não é basicamente sobre o Festival que quero lhes falar, e sim sobre a história de um grupo de cinco rapazes que estava indo ao Festival e o que lhe aconteceu no percurso.

Naquele dia, três deles combinaram de se encontrar na casa de um amigo em comum, precisamente às 19 horas, mas sabemos da correria do dia-dia. Então, lá pelas 21 horas, eles começaram a chegar, o dono da casa ainda nem se aprontara, pois aguardava os amigos para um “esquente”, nome que eles dão quando se reúnem para beber um pouco, antes de irem para uma festa. Durante o “esquente”, o anfitrião foi surpreendido por um telefonema inesperado. Um colega que pouco conhecia, mas que já havia saído com ele, lhe pedia para se juntar ao grupo e rumarem para o festival juntos. Como era de se esperar, ele concordou com o pedido de imediato.

Acho fundamental que vocês entendam que somente três, dos cinco rapazes, vão ser os protagonistas da história. O que, apesar disso, em nada diminui a importância dos outros dois, pois o destino foi cumprido em cinco, cada um participando em menor ou maior escala, pois se apenas um não estivesse ali, poderia ser totalmente diferente o ocorrido. Quero aproveitar a interrupção para lhes falar que esta história não tem final. Não me questione, pois acredito que não poderia ter fim uma história que sobrevive na mente das pessoas e, como filosofia, não é o nosso foco aqui, irei voltar ao conto.

Onde eu estava... Ah sim, lembrei! Depois de reunido, todo o grupo rumou para o “esquente”, riram bastante, com a presença inclusive de um sexto amigo, que por não fazer parte do destino que se aproximava, foi para sua casa dormir logo após o fim do “esquente”. Não pretendo me alongar com o “esquente”, até porque só durou uma garrafa. Isso, dividido por seis homens, nem pode ser considerado um “esquenta-festa”.

Na saída de casa, algo já aconteceu que os atrasou: uma pessoa apareceu para buscar uma criança que estava hospedada. Após isso, os cinco rapazes seguiram então rumo à esperada festa. Já nas imediações do terreno que iria ser uma escola de enfermagem e onde hoje vários prédios foram erguidos, o celular do anfitrião tocou. Era o seu irmão caçula, de 8 anos, que acordara de supetão e, amedrontado, ligou para pedir que seu irmão mais velho voltasse, para fazê-lo dormir. Entretanto, já ansioso por chegar à festa e pelo adiantar do horário, aproximadamente 23:30, ele pede para a jovem criança ligar a TV e se deitar, enquanto ficaria conversando com ele por telefone. Não sabia o jovem rapaz que, nos 15 minutos seguintes, sua vida e a dos outros quatro estariam por um fio. Mas, até aquele momento, tudo estava tranqüilo. Então, resolveu seguir e ignorou o pedido da criança, portadora do presságio de mau agouro.

No minuto seguinte, todos foram surpreendidos por uma criatura portando uma arma, um revólver calibre 38, para ser exato. O sujeito usava um capacete e uma moto estava parada ao seu lado. Sua primeira frase foi: “Bora, encosta aí [apontando o muro ao lado], todo mundo de joelhos e passando o celular e o dinheiro”. Por alguns minutos, foram todos rendidos e foi tirado deles tudo o que ele conseguiu achar. Felizmente, alguns deles jogaram seus pertences num canteiro com uma grama vasta que se alongava no entorno do passeio onde estavam. A vil criatura, não contente com o resultado do seu golpe resolve, então, lhes roubar os tênis e as blusas. Não se sabe ao certo quanto tempo durou a rendição pela criatura das trevas, mas se sabe que, no momento em que a criatura subiu na moto para fugir, foi atingido por um golpe de um dos cinco participantes da jornada.

Agora fica tão complicado contar a história em minúcia que pretendo me expressar da melhor maneira possível.

Então... Neste meio tempo, dois dos cinco rapazes fugiram, tão rápido quanto as pernas deles conseguiam correr. Os dois restantes foram ao auxílio do que atacou a criatura. Foi uma batalha rápida e traiçoeira. Quem já passou por tempos de guerra, sabe que tudo acontece tão velozmente quanto nossos olhos podem ver. Quando deram por si, a arma já havia disparado cinco tiros. Dois deles, com destino certo. Um atingiu no peito o jovem rapaz de cabelos crespos e pretos, estatura mediana e pele branca. O outro, atingiu no braço, desviando-se para o tórax, o rapaz que tinha recebido a ligação do seu irmão caçula.

É interessante que as maiores proezas da humanidade são feitas em momentos de crise e isso inclui, claro, a evolução humana. Ou melhor. Neste caso, o aprendizado humano. Mas voltando à nossa história: acreditem ou não, como um raio surgindo no céu, apareceu uma viatura da Policia Militar, parando ao lado do ocorrido. Logo, os policiais prenderam o meliante e levou os infortunados para o hospital. Não quero, nem vou me alongar ao ocorrido nos momentos anteriores e seguintes, ou como aconteceu a sequência de telefonemas e fatos que ajudaram a salvar a vida dos dois atingidos. Mas quero dizer que, naqueles momentos, o que todos eles mais odiaram e pensaram em ter feito escolhas diferentes para não ter atingido aquele destino, será, no futuro, o ocorrido de maior elo entre eles. Gostaram de recordar e contar com orgulho e determinação por terem sobrevivido a tal façanha e ensinar aos mais novos uma lição que todos, desde novos já sabem, mas que é valido sempre repetir: Não é digno reagir a um assalto por dinheiro, mas é honroso ficar e lutar quando um amigo precisa de você.

Por fim, como já tinha dito antes, não termino a história, pois não há fim para o mistério da existência! Há um contínuo temporal, que leva a todos para caminhos de felicidade e tristeza, existindo aprendizados em todos eles. Cabe a nós aprendermos a retirar o melhor de todas as experiências, transformando um amargo trago de tormento em um doce e belo aprendizado.

Fim.

Por Paulo Maurício (O rapaz atingido no tórax.)