segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Chave do Portal

Depois de conhecer o mundo dos Elfos é difícil voltar e vagar pelas terras dos humanos. Aqui tudo é sem cor, é uma repetição frenética do cotidiano! Tentava de todas as formas retornar para aquelas terras, mas não conseguia achar o caminho para o Portal, então vaguei por dias e noites perdido!

Já me sentia fraco, quase aceitando aquela realidade inóspita, por mais difícil que fosse isso! Não é fácil ser agraciado com tal dádiva e a perder. Pois é, imagine vocês o que seria, em uma comparação chula, pegar um peixe de aquário acostumado a plantas artificiais e a um espaço pequeno, sem muitas opções e o colocar nos mares do Caribe, com toda biodiversidade e depois, simplesmente, o retirar e devolver para sua prisão aquariana...
Os deuses, com certeza, tinham deixado uma pista de como chegar ao Portal, eu tinha que ter deixado escapar alguma coisa, só não conseguia achar. Então, já sem esperança, fui a uma área afastada e alta da cidade ver o por do sol. Na verdade, fui ouvir a canção dos anjos ao nascer e ao morrer do sol.
Não sei se vocês gostam do crepúsculo, a cor alaranjada no horizonte, a boa sensação que o entoar da canção celestial nos traz. Assim, diante dos meus olhos, vi a chave do Portal! Já conseguia contemplar as torres do velho castelo e o som das harpas e bandolins élficos. É tudo tão belo, tinha voltado ao secreto mundo!
Depois de horas desfrutando cada lugar, encontrei a trilha do lago encantado, lar das ninfas do leste, e aquela areia fina e dourada que conduzia à estrada... Abaixei-me e a toquei. Ela escorreu entre meus dedos. Já ouviram falar das ninfas? Pois mesmo que tenham ouvido, preciso lhes contar mais...
...neste momento ouvi ao fundo chamarem meu nome... virei-me e já estava deitado no sofá em minha casa! Na cozinha, meu irmão me chamava. Olhei para minhas mãos e a areia ainda brilhava por entre meus dedos! Sorri sutilmente e levantei-me para atendê-lo. Agora, a serenidade tomava conta do meu ser, já que havia encontrado a chave do Portal!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Destino em Tinta

De imediato, eu peço ao leitor mais aflito que não continue a leitura se não tem vontade de se perder em uma folha de papel e um lápis.

Digo isso, porque fico por muito tempo contemplando um papel em branco, mesmo com um lápis na mão e com uma idéia fixa no pensamento me sinto como Teseu e seu labirinto. Imagino o que pode ser redigido. Minhas idéias mudam e transmutam, não sei mais o que vou fazer, se vou escrever, se vou desenhar, ou mesmo rabiscar. Aquele pedaço mágico de mil possibilidades poderia resgatar um antigo amor, trazer um novo amor, fazer inimigos ou mesmo amigos, declarar guerras, por fim a conflitos milenares...
Todo poder em um simples pedaço de pergaminho velho!
Olho para os lados e não vejo os restos de papeis amassados, talvez Shakespeare esteja sentindo inveja de não precisar amassar tantos itens mágicos para poder escrever um único conto. E nem por isso essa tela, com a imagem destes novos e modernos ofícios, tipo A4, deixa de ter o mesmo poder da escrita, que teria um tinteiro e um pergaminho.
Não sei bem o que provoca ou emana este poder a um fato imbuído em celulose, ou o que o torna tão real que é capaz de fazer pessoas chorarem, rirem ou sentirem qualquer uma das emoções humanas, ao se deliciarem com o que ali fora forjado, sem fogo ou martelo, mas com pena e tinta. Sinto, quando não mais desejo alterar as palavras de um texto, um sentimento de êxtase que me invade. Só então percebo a plenitude da criação!

Afinal é com tinta e papel que se pode delinear destinos e transformar momentos!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Novos Tons

Certo dia, estava andando entre casas e prédios, asfalto e postes, pessoas e mais pessoas.

Tudo isso aparentemente soaria como algo comum, até mesmo normal, mas neste dia acho que os Deuses estavam me olhando. Mas não foi um olhar só por olhar, eu podia sentir a energia de seus poderes emanarem em mim! Foi quando eu soube que Eles me escolheram para ir ao portal. Não sabia se era porque eu já estava preparado para cruzar o portal do novo mundo ou se somente fui agraciado com esta dádiva.
Mas os Deuses são engraçados, eles mostram um portal em um local mais comum do que poderia se pensar, ninguém jamais pensaria que naquele local estariam os hobbits, elfos, magos e outras criaturas que já há muito foram esquecidas pela humanidade. Creio que, como toda coisa desconhecida, no inicio senti um incrível êxtase de prazer e ansiedade, que se misturou com medo e vontade, que me repelia e me fazia desistir e voltar para os prédios, casas e pessoas...
Mas aquele portal era tão brilhante e tão convidativo, que mesmo olhando para trás e vendo que o velho mundo iria perder suas cores no momento em que eu cruzasse aquele brilho intenso, meus pés começaram a andar em direção ao mundo dos Elfos. Sentia cada fibra do meu corpo tremendo de prazer e medo, era algo que jamais tinha sentido, um fervilhão, uma adrenalina pulsante que me deixava cada vez mais forte e ansioso em ser um cidadão Elfiano.
Então, ao chegar ao limiar do novo e velho mundo, não resisti e toquei aquele brilho. E fui sugado para o outro lado. Deus! Todas as cores pareciam mais vivas! As vidas pareciam menos mórbidas! Acho que até o tempo parou para contemplar a beleza de viver! Tudo era tão diferente, tão parecido com os Elfos do mundo antigo, acho até que conseguia ouvi-los, tocando harpas naquele novo mundo, que não era mais dominado por vermes que parasitam a felicidade alheia, neste novo mundo contemplávamos as estrelas, víamos o morrer da lua e o renascer do sol, dormíamos saboreando o prazer.

É neste novo mundo que irei degustar a delícia de ser um novo ser!

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Amigos e Tiros.

Acredito que muitos de vocês já devem ter ouvido falar do Festival de Inverno Bahia.

Pois bem, eu sou uma daquelas pessoas que contam os dias para a chegada da festa, não por ser uma pessoa “festeira”, como se costuma falar. Na realidade, quase não vou e pouco gosto de festa com grande aglomeração, mas o Festival é algo totalmente diferente... Possui algo com uma sintonia, que contagia e envolve!

Mas não é basicamente sobre o Festival que quero lhes falar, e sim sobre a história de um grupo de cinco rapazes que estava indo ao Festival e o que lhe aconteceu no percurso.

Naquele dia, três deles combinaram de se encontrar na casa de um amigo em comum, precisamente às 19 horas, mas sabemos da correria do dia-dia. Então, lá pelas 21 horas, eles começaram a chegar, o dono da casa ainda nem se aprontara, pois aguardava os amigos para um “esquente”, nome que eles dão quando se reúnem para beber um pouco, antes de irem para uma festa. Durante o “esquente”, o anfitrião foi surpreendido por um telefonema inesperado. Um colega que pouco conhecia, mas que já havia saído com ele, lhe pedia para se juntar ao grupo e rumarem para o festival juntos. Como era de se esperar, ele concordou com o pedido de imediato.

Acho fundamental que vocês entendam que somente três, dos cinco rapazes, vão ser os protagonistas da história. O que, apesar disso, em nada diminui a importância dos outros dois, pois o destino foi cumprido em cinco, cada um participando em menor ou maior escala, pois se apenas um não estivesse ali, poderia ser totalmente diferente o ocorrido. Quero aproveitar a interrupção para lhes falar que esta história não tem final. Não me questione, pois acredito que não poderia ter fim uma história que sobrevive na mente das pessoas e, como filosofia, não é o nosso foco aqui, irei voltar ao conto.

Onde eu estava... Ah sim, lembrei! Depois de reunido, todo o grupo rumou para o “esquente”, riram bastante, com a presença inclusive de um sexto amigo, que por não fazer parte do destino que se aproximava, foi para sua casa dormir logo após o fim do “esquente”. Não pretendo me alongar com o “esquente”, até porque só durou uma garrafa. Isso, dividido por seis homens, nem pode ser considerado um “esquenta-festa”.

Na saída de casa, algo já aconteceu que os atrasou: uma pessoa apareceu para buscar uma criança que estava hospedada. Após isso, os cinco rapazes seguiram então rumo à esperada festa. Já nas imediações do terreno que iria ser uma escola de enfermagem e onde hoje vários prédios foram erguidos, o celular do anfitrião tocou. Era o seu irmão caçula, de 8 anos, que acordara de supetão e, amedrontado, ligou para pedir que seu irmão mais velho voltasse, para fazê-lo dormir. Entretanto, já ansioso por chegar à festa e pelo adiantar do horário, aproximadamente 23:30, ele pede para a jovem criança ligar a TV e se deitar, enquanto ficaria conversando com ele por telefone. Não sabia o jovem rapaz que, nos 15 minutos seguintes, sua vida e a dos outros quatro estariam por um fio. Mas, até aquele momento, tudo estava tranqüilo. Então, resolveu seguir e ignorou o pedido da criança, portadora do presságio de mau agouro.

No minuto seguinte, todos foram surpreendidos por uma criatura portando uma arma, um revólver calibre 38, para ser exato. O sujeito usava um capacete e uma moto estava parada ao seu lado. Sua primeira frase foi: “Bora, encosta aí [apontando o muro ao lado], todo mundo de joelhos e passando o celular e o dinheiro”. Por alguns minutos, foram todos rendidos e foi tirado deles tudo o que ele conseguiu achar. Felizmente, alguns deles jogaram seus pertences num canteiro com uma grama vasta que se alongava no entorno do passeio onde estavam. A vil criatura, não contente com o resultado do seu golpe resolve, então, lhes roubar os tênis e as blusas. Não se sabe ao certo quanto tempo durou a rendição pela criatura das trevas, mas se sabe que, no momento em que a criatura subiu na moto para fugir, foi atingido por um golpe de um dos cinco participantes da jornada.

Agora fica tão complicado contar a história em minúcia que pretendo me expressar da melhor maneira possível.

Então... Neste meio tempo, dois dos cinco rapazes fugiram, tão rápido quanto as pernas deles conseguiam correr. Os dois restantes foram ao auxílio do que atacou a criatura. Foi uma batalha rápida e traiçoeira. Quem já passou por tempos de guerra, sabe que tudo acontece tão velozmente quanto nossos olhos podem ver. Quando deram por si, a arma já havia disparado cinco tiros. Dois deles, com destino certo. Um atingiu no peito o jovem rapaz de cabelos crespos e pretos, estatura mediana e pele branca. O outro, atingiu no braço, desviando-se para o tórax, o rapaz que tinha recebido a ligação do seu irmão caçula.

É interessante que as maiores proezas da humanidade são feitas em momentos de crise e isso inclui, claro, a evolução humana. Ou melhor. Neste caso, o aprendizado humano. Mas voltando à nossa história: acreditem ou não, como um raio surgindo no céu, apareceu uma viatura da Policia Militar, parando ao lado do ocorrido. Logo, os policiais prenderam o meliante e levou os infortunados para o hospital. Não quero, nem vou me alongar ao ocorrido nos momentos anteriores e seguintes, ou como aconteceu a sequência de telefonemas e fatos que ajudaram a salvar a vida dos dois atingidos. Mas quero dizer que, naqueles momentos, o que todos eles mais odiaram e pensaram em ter feito escolhas diferentes para não ter atingido aquele destino, será, no futuro, o ocorrido de maior elo entre eles. Gostaram de recordar e contar com orgulho e determinação por terem sobrevivido a tal façanha e ensinar aos mais novos uma lição que todos, desde novos já sabem, mas que é valido sempre repetir: Não é digno reagir a um assalto por dinheiro, mas é honroso ficar e lutar quando um amigo precisa de você.

Por fim, como já tinha dito antes, não termino a história, pois não há fim para o mistério da existência! Há um contínuo temporal, que leva a todos para caminhos de felicidade e tristeza, existindo aprendizados em todos eles. Cabe a nós aprendermos a retirar o melhor de todas as experiências, transformando um amargo trago de tormento em um doce e belo aprendizado.

Fim.

Por Paulo Maurício (O rapaz atingido no tórax.)